Podcast Turn Autism Around: O aplicativo Speech Blubs para o autismo

Este podcast foi criado e publicado por Mary Barbera.

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Este podcast foi criado e publicado por Mary Barbera.

https://www.youtube.com/watch?v=deCYNB3o12U

Mary: Você está ouvindo o episódio número cento e dois do podcast Turn Autism Around, e eu sou sua anfitriã, Dra. Mary Barbara. Hoje trago um tema bem diferente. Conversei com o cofundador de um aplicativo usado por crianças com autismo. O nome dele é Mitja Mavsar, ele é da Eslovênia, pai de quatro meninos, marido e cofundador da empresa Blub Blub Inc. Seus produtos, o Speech Blubs e o Reading Blubs, foram lançados em 2017 e já ajudaram mais de três milhões de crianças com atrasos na fala e autismo, além de condições como a síndrome de Down. Então, hoje vamos falar sobre o aplicativo. Também vamos conversar sobre vídeo modelagem, tempo de tela, atenção compartilhada, hiperlexia e, claro, como desenvolver a fala usando o Speech Blubs. Então, vamos a essa entrevista incrível com Mitja Mavsar.

Mary: Muito obrigada por estar conosco hoje, Mitja.

Mitja: Obrigado pelo convite.

Mary: Que ótimo. Conte aos nossos ouvintes um pouco sobre você para começarmos o programa. Sei que normalmente começo perguntando: conte como você entrou no mundo do autismo, mas você não é exatamente desse meio. Então, conte-nos um pouco sobre você e como acabou se envolvendo no desenvolvimento desse aplicativo.

Mitja: Claro. Aqui estou eu, na Eslovênia. Estamos em lockdown. Tudo começou quando eu era pequeno e tinha problemas de fala. Acho que ninguém entendia o que eu falava quando eu tinha quatro anos. Então, fiz fonoaudiologia. Eles corrigiram a maior parte das coisas. Você provavelmente vai notar o que não conseguiram corrigir ou coisas assim.

Mary: Não tenho a menor ideia. Soa ótimo para mim.

Mitja: Tudo bem, obrigado. Mas, sabe, um erro de articulação acabou ficando comigo até os 16 anos, mais ou menos. Então, a fonoaudiologia foi uma grande salvação para mim porque, quando você é adolescente, sabe como as crianças e os jovens podem ser cruéis. E quando corrigi isso, foi muito bom para a minha autoconfiança e para o meu desenvolvimento pessoal dali em diante. Depois, comecei a trabalhar na área de internet. Atuei como designer de experiência do usuário (UX) ao longo de uma carreira de 15 anos. Trabalhamos com muitas startups diferentes e percebi que seria ótimo ter uma startup voltada para o que me interessava na época: eu tinha muito interesse em psicologia, inclusive psicologia infantil, até porque eu já tinha dois filhos naquele momento.

O começo do aplicativo Speech Blubs

Mitja: Hoje tenho quatro filhos, as coisas mudaram. Também temos muito mais usuários do que na época em que eu tinha dois filhos. Mas basicamente o que aconteceu foi que conheci um rapaz de 20 anos na época. Eu tinha 33 e ele estava em um workshop. Havia uma ideia: e se ajudássemos crianças com um aplicativo, crianças com problemas na fala, nada muito específico? A ideia inicial era mover objetos com a voz da pessoa. Seria um aplicativo controlado por voz, sabe? Se você fizesse um som, uma bola se moveria ou aconteceria uma animação.

Mitja: Então ele veio até mim e disse: "E aí, cara mais velho, você pode me ajudar com esse projeto e com essa ideia?". E eu respondi: "Claro, vamos pesquisar". Eu não tinha nenhuma experiência com fonoaudiologia. Eu tinha tido a vivência de ter ido a uma fonoaudióloga quando criança, mas isso não conta. Então não tínhamos muita segurança em nosso conhecimento: será que devíamos mesmo entrar na área da fonoaudiologia? O que fizemos foi conversar primeiro com fonoaudiólogos na Eslovênia e depois fomos para os Estados Unidos. Mostramos nosso pequeno protótipo a muitos fonoaudiólogos na Califórnia. Estávamos certos de que, naquele grande mercado americano, no Vale do Silício, haveria muita tecnologia nessa área. Mas esses terapeutas diziam... bem, agindo como os americanos costumam agir, diziam: "Isso é incrível, maravilhoso", mas completavam: "Sabe, tempo de tela e fonoaudiologia não combinam muito bem".

Mitja: Ficamos naquela dúvida: será que vai dar certo ou não? Voltamos para casa e decidimos fazer mesmo assim, embora não parecesse um bom negócio no começo. Mas sentíamos que devíamos fazer isso. Estaríamos fazendo algo bom pela humanidade e pelas crianças, sabe? Há tantas startups por aí que só querem fazer o dinheiro girar, e ajudar as crianças parecia algo realmente nobre. Então seguimos em frente, e a primeira ideia de animações e tudo mais caiu por terra porque não tínhamos animadores na região; todos estavam trabalhando na nova startup da moda na cidade. Foi aí que tivemos uma ideia: e se simplesmente gravássemos crianças? Sabe? E se fizéssemos algo bem natural? Gravamos outras crianças e as crianças em casa repetem o que veem no vídeo.

Mitja: Fomos para o estúdio e essa é uma história muito interessante. Entramos no estúdio com uma fonoaudióloga presente e tínhamos crianças na frente da câmera. Fizemos alguns exercícios bem básicos, acho que eram exercícios orofaciais e auditivos, não tenho certeza exata do termo técnico. Algo que fazemos o tempo todo, embora muitos digam que isso não produz os sons da fala diretamente. Mas enfim, estávamos no estúdio com um exercício muito simples para a criança em frente à câmera demonstrar. Era algo como: imite um peixe, ok?

Mary: Abrindo e fechando a boca.

Mitja: Só abrindo e fechando. Planejávamos chamar esse exercício de "peixinho". O que aconteceu foi que estávamos no estúdio gravando o primeiro vídeo de todos. Estávamos lá eu, o Jernej, nosso CEO e cofundador, além dos pais e terapeutas. Estávamos assistindo a esse vídeo, e de repente o Jernej olha para mim e diz: "Olha, olha ao redor. Todo mundo está fazendo".

Mitja: Todo mundo no estúdio estava imitando o peixe! Foi hilário. E pensamos: "Opa, encontramos algo aqui". Na época não sabíamos que isso se chamava vídeo modelagem. Não fizemos de propósito, simplesmente vimos que funcionava.

Mary: E deslanchou a partir daí. Isso foi há poucos anos, em 2017, quando vocês lançaram o Speech Blubs.

Mitja: Isso, lançamos o Speech Blubs em 2017. Na verdade, lançamos uma versão em esloveno em 2015 apenas para testar com pais e tudo mais.

Mary: Ele está disponível apenas em dois idiomas?

Mitja: Não, na verdade nem existe mais a versão em esloveno. Nós seguimos o mercado, sabe? Não tínhamos como nos sustentar na Eslovênia. Dá para imaginar: é um país com dois milhões de habitantes, acho que tínhamos cerca de cento e cinquenta fonoaudiólogos registrados.

Mitja: Então nem chegava a ser um mercado. Acabamos fazendo parceria com um produtor americano que gravou os vídeos com crianças americanas. Avaliamos essas crianças com diferentes fonoaudiólogos. Acho que, para cada vídeo, temos cerca de três fonoaudiólogos avaliando as crianças. A partir daí, lançamos a versão dos EUA. Depois, recebemos comentários de pais britânicos dizendo que as palavras faladas no app não eram o inglês britânico correto. Então fizemos uma versão para o Reino Unido, depois em espanhol, português e francês. Agora temos todos esses idiomas no aplicativo. Assim, a criança também pode aprender um segundo idioma usando o nosso app.

Vídeo modelagem e o Speech Blubs

Mary: Nossa, que legal. Eu dei uma olhada no aplicativo e sei que vocês já têm três milhões de usuários até agora, certo? Basicamente são crianças reais gravadas fazendo sons, como barulhos de animais: "vamos fazer o som do macaco", aí aparece um macaquinho animado, a criança do vídeo faz o som de macaco e a criança usuária do outro lado é incentivada a fazer também. Há barras de progresso que vão passando enquanto ela faz. É bastante complexo e, ao mesmo tempo, simples. É uma mistura de algo muito complexo com algo muito simples. Mas você mencionou a vídeo modelagem, e essa é uma área sobre a qual já gravei um vídeo no meu blog. Podemos deixar o link nas notas do episódio. Eu sei que é uma estratégia baseada em evidências. Você poderia explicar brevemente aos nossos ouvintes o que é a vídeo modelagem?

Mitja: Na vida real, se você quer aprender a falar, desenvolver a linguagem ou qualquer outra coisa, como habilidades sociais, você precisa ter contato com outras pessoas, observando-as e olhando para seus rostos. Se você estiver no espectro autista, pode não ter tanto interesse espontâneo por rostos. Então, o que fizemos com o aplicativo foi algo muito natural. E essa vídeo modelagem é uma técnica baseada em pesquisas científicas que se apoia na neurociência dos neurônios-espelho. Quando você observa outras pessoas, o seu cérebro basicamente ativa as mesmas áreas que o cérebro delas está ativando.

Mary: É como uma imagem no espelho. Quando você se olha no espelho, há neurônios-espelho disparando, e não apenas quando você fala.

Mitja: Exatamente, não é só isso. Se eu abrir minha boca agora, no meu cérebro há um comando específico que foi acionado e me fez abrir a boca. No seu cérebro, enquanto você apenas observa, a mesma região é estimulada. Mesmo se eu estiver apenas observando você assentir com a cabeça ou fazer qualquer outra coisa, meu cérebro faz o mesmo que o cérebro da outra pessoa. É dessa forma comprovada que nós aprendemos: observando. No nosso caso, o aplicativo é repleto de vídeos de crianças. Mesmo que a criança não esteja imitando imediatamente, só de assistir àquele pequeno "professor" no app, o efeito acontece. E como sabemos disso? Houve uma grande motivação no começo, preciso dizer, pelo menos para mim e para outros membros da equipe.

Mitja: Foi com a nossa terapeuta na época. Ela atendia muitas crianças no espectro autista e crianças com síndrome de Down. Havia um garotinho com síndrome de Down que também tinha traços do espectro. Em todas as sessões, ele usava óculos e, em 30 segundos, arrancava os óculos e se recusava a colaborar com a terapeuta. Aí apresentaram o aplicativo para ele.

Mitja: Ele era uma criança muito carinhosa, acho que tinha cinco ou seis anos na época, totalmente não verbal. Quando apresentaram o iPad para ele — e crianças com síndrome de Down costumam ser muito afetuosas —, ele começou a abraçar o iPad. O iPad e o aplicativo Speech Blubs foram o grande clique para ele. A mãe e ele usavam o app por 20 minutos todos os dias. Lembro que, depois de seis meses, ele foi até o nosso escritório, já que ele nos visitava de vez em quando. E, pela primeira vez, ele olhou nos meus olhos.

Mitja: Ele começou a se comunicar por gestos. No primeiro mês, ele nem participava ativamente, só ficava observando as crianças no app. Mas depois ele simplesmente desabrochou, e foi incrível presenciar isso.

Mary: Sim. Você mencionou antes que crianças com autismo tendem a não olhar para rostos. Recentemente gravei um podcast, se não me engano foi o episódio 93, que também podemos colocar nos links das notas do episódio. É sobre o trabalho do Dr. Ami Klin, da Universidade Emory. Ele é um pesquisador muito famoso na área do autismo que acabou de publicar novos estudos, e ele fez muitas pesquisas sobre rastreamento ocular com crianças no espectro, crianças com desenvolvimento típico e gêmeos idênticos e fraternos. O que ele descobriu foi que bebês e crianças bem pequenas que mais tarde recebem o diagnóstico de autismo realmente não focam nos rostos das pessoas, nem na interação social ou nos sinais não verbais. Ele mostra um vídeo, por exemplo, de duas crianças brincando em um carrinho de brinquedo com uma portinha que abre e fecha. O rastreamento ocular das crianças típicas foca na pequena "disputa" entre as duas crianças: uma quer a porta aberta e a outra quer a porta fechada, abre e fecha. Já as crianças que tinham ou que mais tarde receberam o diagnóstico de autismo focavam puramente na porta abrindo e fechando, perdendo completamente toda a interação social.

A visão do Speech Blubs sobre o tempo de tela

Mary: E o que o Dr. Klin disse foi: se isso acontece em apenas cinco minutos, onde elas perdem milhares de interações sociais, contatos visuais de frações de segundo, expressões de frustração e reações de resistência, então expô-las a uma quantidade enorme de telas — especialmente quando a tela mostra interações sociais mas a criança foca nos elementos errados — pode ser um verdadeiro problema. Anos atrás também gravei um vídeo no meu blog chamado "Tempo de tela e por que eu não o eliminaria totalmente". Como você comentou, muitos fonoaudiólogos dizem: "queremos fugir do tempo de tela". Mesmo com o isolamento mundial da covid-19, as pessoas falavam: "precisamos nos livrar do tempo de tela". É impossível eliminar as telas por completo, mas precisamos fazer um uso inteligente delas. Você fala um pouco sobre esse conceito de tempo de tela inteligente. Como o uso do seu aplicativo se diferencia de simplesmente colocar a criança na frente da TV ou do tablet por quatro horas ao dia?

Mitja: Eu acabei de assistir a um documentário que mostrava que, em média, crianças na fase pré-escolar passam de quatro a seis horas por dia em frente às telas. Nos Estados Unidos a situação parece ser ainda mais grave, chegando a uma média de seis horas. Isso é excessivo. É como qualquer outra coisa no nosso ambiente que cause liberação de dopamina. Estamos na época do Halloween, então as crianças vão comer muito açúcar. Se você deixar uma criança comer açúcar todo dia, há uma enorme chance de ela desenvolver obesidade. O mesmo vale para o tempo de tela: se você usa de forma saudável, não vai prejudicar; se usa em excesso, você terá problemas. E isso vale tanto para crianças quanto para adultos. Os adultos são um grande problema; às vezes, em vez de brincar com meus filhos, fico jogando videogame ou olhando o Instagram sem parar.

Mitja: E, nessa situação, as crianças não recebem interação presencial suficiente. Agora estou chegando à resposta direta para a sua pergunta: se você quer que uma criança desenvolva a fala, habilidades sociais e outras capacidades importantes, ela precisa de contato cara a cara. Ela precisa interagir com os pais, com os colegas e assim por diante. Precisa ver rostos sem máscaras e ter foco nisso. Quando estávamos começando, observamos os outros aplicativos infantis mais populares. Hoje somos, se não me engano, o 9º aplicativo na categoria infantil da App Store dos EUA. Em todos os outros apps, você vê animações chamativas e recursos viciantes. Como designer de experiência do usuário, eu sei exatamente o que fazer para prender a atenção de alguém e fazer com que a pessoa volte a usar o app sem parar.

Mitja: Temos uma realidade em que os pais estão grudados nas telas, e as crianças aprendem pelo exemplo deles, com certeza. Além disso, as crianças muitas vezes não têm outra atividade, então acabam fazendo o mesmo. Por isso, acredito que o tempo de tela inteligente começa com limites bem definidos. Começa com a presença dos pais ao lado, explicando o que está acontecendo. Existem pesquisas sobre isso: ensinaram várias coisas a crianças apenas mostrando vídeos educativos. Elas aprenderam um pouco — cerca de 50% do que aprenderiam se aquilo fosse apresentado na vida real. Mas o dado interessante é que, quando havia um pai ou uma mãe presente explicando o que a criança estava assistindo, o aprendizado aumentava muito. Não chegava ao nível da experiência concreta da vida real, claro, mas era muito, muito melhor. Então, um tempo de tela de qualidade... sabe-se que até desenhos animados podem ser bons. Não todos, mas muitos desenhos são feitos de forma que as crianças realmente aprendam algo. Mas quando os pais estão presentes e explicam a história, é infinitamente melhor. Vocês podem desenhar juntos depois o que viram no desenho e assim por diante.

Como praticar a atenção compartilhada

Mary: O que fizemos também foi incentivar que os pais participem. Por exemplo, com o exercício do peixinho: mexer a boca para frente e para trás como o peixe, fazer bolhas, ou imitar o som do macaco. Você pode envolver seu filho no aplicativo: "Olha, o menino está fazendo o som do macaco! Veja a mamãe fazendo o som do macaco também!". Isso desenvolve outro conceito fundamental que o seu aplicativo e os meus cursos online têm em comum: a importância da atenção compartilhada e de vivenciar momentos juntos. Seja dividindo esse tempo de tela, rindo de algo engraçado ou interagindo ao vivo com a fala — como segurar uma banana quando a criança quer a fruta e dizer "banana, banana, banana" antes de entregar a ela. Esse processo de pareamento de estímulos... quando analisei o seu app e conheci você melhor, percebi quantos conceitos essenciais nós dois compartilhamos em nosso trabalho para ajudar as crianças. A atenção compartilhada é algo gigantesco.

Mitja: Sim, com certeza. Concordo plenamente. O nosso grande diferencial foi não sobrecarregar o app com animações. Colocamos crianças reais no centro e usamos outros elementos para manter o interesse da criança ativo. Conseguimos acompanhar pelas métricas de uso, por exemplo, o comportamento das crianças. Temos usuários que repetem a mesma atividade sem parar. Poderíamos chamar isso daquele comportamento repetitivo tão comum no autismo. Mas acredito que o tempo de tela inteligente só acontece quando os pais participam. Os pais são o fator mais importante, assim como em qualquer terapia ou na criação no dia a dia. Se uma criança fica seis horas sozinha assistindo a qualquer coisa na TV ou no YouTube, não sabemos exatamente o que vai acontecer, mas é provável que ela não desenvolva habilidades sociais. Há inclusive menções na literatura médica de que crianças expostas a muita TV desenvolvem comportamentos semelhantes aos do espectro autista. E faz todo sentido.

Mitja: Crianças que não brincam com outras crianças lá fora e ficam sozinhas assistindo ao YouTube com certeza não vão desenvolver as habilidades sociais típicas. Elas terão dificuldades na fala, na linguagem e em tudo mais, do mesmo jeito que ficariam obesas se só comessem doces o tempo todo. É o que acontece. O ser humano se adapta a qualquer ambiente. Se o ambiente se resume a assistir a desenhos, nosso corpo e nosso cérebro vão se moldar para essa situação e nos tornar melhores espectadores de TV — mais passivos, por assim dizer. É isso.

Desenvolvendo o controle ecoico

Mary: Sim. Um dos pontos em que sempre foco é a capacidade de pais e profissionais desenvolverem o que chamamos de controle ecoico: fazer com que a criança consiga ecoar, repetir sons e palavras. Mesmo crianças com desenvolvimento típico nem sempre apresentam essa habilidade de repetir espontaneamente aos 15 ou 18 meses; em muitos casos isso ainda não desabrochou. E, com crianças no espectro autista, é muito comum que algumas permaneçam não vocais, sem falar, sem desenvolver essas habilidades. Trabalhamos muito nos meus cursos online para construir respostas de imitação: imitação com objetos, imitação motora oral — fazer movimentos com a boca quando possível. Mas não sou muito a favor de ficar tocando no rosto da criança para forçar isso.

Mary: Algo que sempre digo é que não podemos arrancar as palavras da boca de uma criança, mesmo que ela consiga falar, por exemplo, "banana". Você nunca conseguirá forçar uma criança a dizer "banana", mesmo que tenha o chamado controle ecoico — e podemos deixar nas notas do episódio os links dos podcasts ou vídeos que gravei sobre controle ecoico. Uma das melhores formas de conquistar esse controle é pela repetição, pareamento de estímulos e vídeo modelagem, entrando "pela porta dos fundos", tornando o processo divertido e atraente, com um sistema de reforço integrado. E tenho certeza de que, como desenvolvedor de aplicativos, você é um verdadeiro especialista em sistemas de reforço integrados. Alguns especialistas em parentalidade dizem: "não acreditamos em ameaças, castigos ou subornos", e eu concordo totalmente com isso.

Mary: Mas quando dizem: "também não acreditamos em recompensas ou reforço", não faz sentido. O mundo inteiro funciona sob os princípios do reforço positivo, quer você acredite ou não. É como dizer que não acredita na gravidade.

Mitja: Essa é a base de toda a psicologia desenvolvida nos últimos séculos. É ciência comportamental, não há o que contestar.

A hiperlexia e o Reading Blubs

Mary: É como a gravidade: se você reforça o comportamento, a frequência dele aumenta. Exatamente. Bom, vamos mudar de assunto rapidinho, porque acho isso muito importante. Os vídeos do aplicativo são excelentes e vocês fizeram um trabalho fantástico expandindo para cinco idiomas. Vocês também lançaram o Reading Blubs, focado em letramento precoce e habilidades pré-leitoras. Eu trabalhei com hiperlexia com meu filho Lucas, que apresentava hiperlexia quando era pequeno — que é a habilidade de ler ou reconhecer letras antes mesmo de conseguir falar direito. Ao que parece, no autismo há uma parte do cérebro que fica hiperestimulada por letras e números. Muitas vezes os pais, inclusive eu na época, se apegam a isso: "É só hiperlexia, não é autismo". Mas costumam ser as duas coisas juntas. Não que toda criança com hiperlexia tenha autismo, pois algumas crianças com QI muito alto podem ser simplesmente muito precoces na leitura e coisas do tipo.

Mary: Mas quando dei uma olhada no Reading Blubs, percebi que o foco principal de vocês não é simplesmente o reconhecimento de letras. Vocês priorizam o ouvir histórias e a compreensão, o que considero infinitamente mais importante, principalmente para crianças na primeira infância e na fase pré-escolar, e não apenas para quem tem hiperlexia.

Mitja: Exato. Mais uma vez, nós fizemos pesquisas e conversamos com pais, professores e terapeutas. Notamos uma tendência muito clara: os pais não leem com os filhos todos os dias. Eles sabem que deveriam ler, mas não leem. Há pais exaustos porque têm dois empregos ao mesmo tempo; há pais mais pragmáticos que não têm aquela imaginação lúdica para transformar a leitura em uma grande brincadeira divertida. Também percebemos que alguns aplicativos tentam ensinar crianças de seis ou sete anos a ler, quando essa já é a fase da leitura formal. Mas antes disso, na pré-escola, o momento é de ouvir histórias. Claro que elas podem brincar com o nome das letras — ou até melhor se não focarem só nisso agora —, mas o fundamental é terem contato com muitas histórias. O que fizemos aqui foi usar o mesmo conceito: há uma criança leitora que faz exatamente o que pais dedicados fariam na hora da historinha de dormir.

Mitja: O que pais dedicados fariam? Leriam com muito entusiasmo, fariam perguntas depois e deixariam a criança tocar nas ilustrações do livro. Isso é ler. No app, você tem uma criança lendo uma história para você. Você faz os personagens avançarem tocando neles na tela. Temos, por exemplo, uma alpaca e você pode tosar a alpaca. É como um livro animado, digitalizado de um jeito muito bem feito. Os resultados têm sido excelentes: as crianças acompanham as histórias do começo ao fim. Ao final, a mesma criança do vídeo volta à tela e pergunta: "Qual era o nome da alpaca?" ou "De que cor era a bicicleta?". E a criança toca na tela para responder à pergunta feita por uma pessoa de verdade.

Tempo de tela inteligente

Mitja: Mais uma vez, estamos oferecendo um tempo de tela inteligente aos nossos usuários. O recurso está incluso na mesma assinatura: quem assina o Speech Blubs ganha acesso gratuito a ele, e vice-versa. Temos famílias que usam o Speech Blubs com crianças de um, dois ou três anos e começam a introduzir o Reading Blubs por volta dos dois anos e meio. Já vi crianças de dois anos e meio aproveitarem super bem, mas ele é voltado principalmente para a faixa de três a cinco anos, no caso de crianças com desenvolvimento típico. Se não for o caso, pode ser aproveitado mais tarde, dependendo das necessidades de cada uma.

Mary: E, no caso do Reading Blubs, com certeza também é ideal ou indispensável que os pais estejam por perto acompanhando. Assim não vira apenas um voltar na tela para tosar a lhama de novo: "tosar a lhama, tosar a lhama", porque é aí que as crianças com autismo podem ficar presas na repetição. Eu criei um programa de leitura nos meus cursos online que incentiva os pais a irem à biblioteca uma vez por semana, pegarem de cinco a dez livros novos, devolverem os anteriores e lerem historinhas bem simples, fazendo perguntas fáceis. Com o fechamento das bibliotecas na pandemia, muitos lugares ficaram sem acesso, e alguém me recomendou o aplicativo Epic, que tem uma coleção imensa de livros. Quanto mais recursos tivermos para ler para os nossos filhos, melhor. Nós mesmos assinamos o Epic porque é ótimo, inclusive para o meu filho de 24 anos com autismo severo, poder escolher livrinhos simples, folhear, responder a perguntas e preencher o nosso dia.

Mary: Preencher o dia é um desafio diário imenso para muitas famílias no mundo todo, principalmente com uma criança no espectro autista. Todos nós estamos fazendo o melhor que podemos. Aplicativos como o Speech Blubs e o Reading Blubs são ferramentas valiosas para enriquecer nosso repertório. Eu sou uma grande defensora de que os pais gravem seus próprios vídeos caseiros, mas o problema é: quantos vídeos você consegue produzir? Vocês têm uma equipe de produção inteira, estão sempre adicionando novidades e trazem crianças diferentes. Isso evita que a criança fique presa assistindo à mãe cantar "cabeça, ombro, joelho e pé" dez vezes seguidas. Quanto mais flexibilidade pudermos incentivar nas crianças, com maior variedade de novas histórias e novas formas de interagir,

Mary: mais proveito elas vão tirar dessas ferramentas. Com certeza. Muito bem, acho que abordamos muita coisa boa aqui. Teremos um link de parceiro para quem quiser acessar: MaryBarbera.com/blubs. B-L-U-B-S. Um nome bem legal e diferente. Vale a pena conhecer o Speech Blubs e o Reading Blubs. Os dois estão na mesma assinatura, custa apenas alguns dólares por mês e você pode optar pelo plano mensal ou anual. Dá para fazer um teste grátis, o que é excelente para avaliar se faz sentido para o seu filho.

Mitja: Há um recurso no nosso aplicativo totalmente gratuito, disponível antes mesmo de qualquer pagamento: a triagem de desenvolvimento. Você insere a data de nascimento e os dados do seu filho e recebe um relatório completo sobre os marcos do desenvolvimento. Não envolve apenas fala, linguagem e leitura, mas também habilidades pragmáticas, brincadeira e audição. Em meses bons, realizamos a triagem de cerca de cento e cinquenta mil crianças todo mês. Diante do cenário que vemos hoje no mundo todo, quando você tem um filho de dois anos, a fila de espera para conseguir uma consulta com um fonoaudiólogo costuma ser bem longa, e...

Uma ótima alternativa enquanto você espera pela consulta com o fonoaudiólogo

Mary: E você também espera pelo pediatra do desenvolvimento, espera pelo tratamento... Mas não, digo, você tem toda razão. Uma das mães que faz parte do meu curso para bebês tinha um filho de vinte meses, sem diagnóstico, sem terapias. Ela morava no Reino Unido e contou que a fila de espera para um fonoaudiólogo era de 18 meses. Isso apenas para uma avaliação fonoaudiológica! As filas de espera são terríveis, e é por isso que estou escrevendo meu segundo livro, Turn Autism Around. Ele é realmente um guia prático para os pais enquanto esperam pelo diagnóstico ou pelo tratamento, porque, como nós dois sabemos e acreditamos, os pais podem fazer toda a diferença. Então, ter acesso a aplicativos como o de vocês, aprender mais e — se você for um profissional que está nos ouvindo — capacitar os pais para que aprendam mais...

Mary: ...e realmente ter ferramentas para engajar a criança, acho isso maravilhoso. Você pode encontrar tudo isso — a triagem gratuita, o período de teste grátis e a assinatura — em MaryBarbera.com/blubs. Você também pode conferir todas as notas do episódio com os links para os recursos que mencionamos. Gosto de encerrar nossos episódios lembrando que um dos objetivos do meu podcast é ajudar pais e profissionais a terem menos estresse e vidas mais felizes. Então, como pai de quatro filhos, desenvolvedor de aplicativos e marido, você tem alguma dica de autocuidado ou de controle do estresse que pratica diariamente ou quando tem um tempinho para desacelerar?

Mitja: Com certeza. Tive três dias bem estressantes agora há pouco. Não saí de casa por uns três dias. Geralmente, durante o lockdown, eu apenas saio para a natureza com as crianças — às vezes sozinho, mas quase sempre com elas. Sim, o estresse é um grande desafio. Acho que precisamos apenas olhar menos para as telas e ver mais a natureza. E fazer isso não significa eliminar as telas, mas simplesmente reduzir, da mesma forma como precisamos reduzir as idas à geladeira, sabe? Tudo é uma questão de equilíbrio. Sim, tudo é equilíbrio.

Mary: Pois é, sim, sim. Eu adoro essa ideia de sair para a natureza. E sei que, para mim, isso também reduz o estresse. Então, muito obrigada, Mitja. Foi um prazer conhecer você melhor. Estou ansiosa para acompanhar o crescimento de vocês e fazer parte desse esforço real para ajudar crianças com dificuldades de fala, com autismo e todos que têm desafios para falar. Muito obrigada pelo seu tempo hoje e tenha um ótimo dia.

Mitja: Obrigado.

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